
O maior sorriso do mundo. Para quem frequenta os corredores da Assembleia Legislativa de Pernambuco, não caberia outra definição para o semblante do deputado estadual e pastor da Assembleia de Deus Cleiton Collins (PP) na terça-feira passada. O parlamentar não escondia a satisfação antes de entrar no plenário na Casa no dia em que os deputados rejeitaram a criação da Frente GLBT, de autoria do deputado Edilson Silva (Psol). A expressão do político, que foi um dos primeiros a chegar, escondia uma articulação nos bastidores para barrar a proposta. Na ocasião, a Frente só conquistou 23 dos 25 votos favoráveis para sua aprovação. No saldo, ainda dez votos contrários e 15 ausências, essas últimas consideradas essenciais na derrota.
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Sob sua articulação, ainda, está a recém-criada bancada evangélica, que conta sete deputados tanto da base de apoio ao governador Paulo Câmara (PSB) como da oposição. O que une grupo é um mesmo chavão: “em defesa da família”. Talvez, apenas isso – mas não deixa de revelar o poder e ascensão do grupo. Na legislatura anterior, os deputados da bancada eram apenas três. Detalhe: na eleição de 2014, dos 49 deputados estaduais eleitos, dos cinco mais votados, três foram evangélicos. Cleiton Collins conquistou a liderança geral, com 216.874 votos.
Apesar de inclinar para o mesmo pensamento em pautas tachadas como conservadoras, como a crítica ao aborto, ao casamento homossexual e até mesmo em temas que envolvam educação infantil e religiosa, a bancada evangélica é tão distinta como qualquer outra. Dentre os sete da Alepe, uns têm um perfil mais liberal, outros são mais conservadores. Isso no quesito debate.
A forma como entraram na política também diverge. Alguns são escolhidos como candidatos oficiais de determinadas igrejas, como o Bispo Ossésio Silva (PRB), da Igreja Universal do reino de Deus, e o presbítero Adalto Santos (PSB), da Assembleia de Deus. Alguns candidatos, dizem os deputados, são apresentados à comunidade religiosa e possuem o direito de fazer campanha dentro das igrejas, inclusive antes ou depois dos cultos. Aliás, no caso de Adalto, o deputado deixa bem claro que é um representante de sua igreja dentro do Legislativo. O problema – dizem os parlamentares que não são candidatos oficiais – é que existe perseguição de quem não deseja votar nos escolhidos. Por exemplo: caso um pastor de uma determinada igreja ou mesmo um presbítero não vote no candidato que a igreja escolheu, ele pode ser afastado ou perseguido dentro da instituição.
“Há casos de irmãos que, por uma questão pessoal, colam um adesivo no carro de um candidato que não é da igreja e começa a ser perseguido. Ele pode perder o cargo que ocupa, como chefe do discipulado, disse, em reserva, um deputado da bancada evangélica. “Não há perseguição. O problema é que tem candidato que só aparece na igreja durante a eleição e aí a igreja impõe restrições”, diz outra fonte. Entre eles, há, ainda muitas histórias curiosas. Apesar de pequeno, o grupo não é tão coeso, mesmo com as aparências de que estão juntos dentro do segmento. Há deputados evangélicos que chegam a ser tratados, em tom de brincadeira por, talvez, não se posicionarem sobre determinados assuntos.
Dentro do jargão político, outros são “mais leves”, como o caso do deputado André Ferreira (PMDB), estreante na Casa. O deputado, mesmo integrando o grupo e sendo membro da Assembleia de Deus, é filho de um velho conhecido no Legislativo estadual, o presbítero Manoel Ferreira, que teve sete mandatos. André não é candidato oficial de qualquer igreja, mas tem como base o público religioso. Apresenta um programa de rádio e investe em pautas fora desse eixo, como o recente Projeto de Lei obriga o estado a dar gratuitamente o fardamento aos policiais militares, além de um colete individual. Atualmente, esses soldados pagam pela farda e utilizam alguns materiais coletivamente.
Aliás, talvez por ter um perfil “mais solto”, sendo mais carismáticos e abertos para pautas não religiosas também, tanto André Ferreira como Cleiton Collins deixam mais abertas as possibilidades de futuro. Cleiton Collins, por exemplo, tem a mulher vereadora do Recife, Michele Collins (PP), e pretende se candidatar, novamente, à Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. Já André tem um irmão deputado federal, Anderson Ferreira (PR), e articula a estreia de seu cunhado Frederico Menezes de Moura Ferreira, também filiado ao PR, para disputar uma vaga na Câmara do Recife no próximo ano. Os dois visualizam o crescimento do segmento evangélico como uma reação da sociedade na preservação de alguns valores “perdidos no passado”, como os evangélicos gostam de nomear.
“Não somos intolerantes, combatemos isso (a intolerância)”, disse o deputado Cleiton Collins ao falar da votação da Frente LGBT. Na internet, uma campanha virtual apresenta os deputados fujões, que saíram da votação por conta da articulação dos evangélicos para não votarem em favor do projeto. “Isso sim que é intolerância, perseguição”, completou. Agora, o deputado encampa uma nova batalha: a proibição de festas no formato open bar – que as bebidas são livres com o pagamento da entrada – e a regulamentação das raves. A intenção, segundo ele, é diminuir o alcoolismo entre os jovens. “Também (a bancada evangélica) devemos combater o projeto que permite a volta do consumo de bebidas nos estádios de Pernambuco. Os números comprovam que a violência diminuiu. Nós vamos apresentar isso em plenário, nas discussões”, prometeu o pastor.
Diário de Pernambuco