O terceiro mandato do governador Ibaneis Rocha (MDB) começou.
Depois de oito dias vivendo as glórias da segunda gestão à qual foi reeleito ainda no primeiro turno do pleito de 2022, Ibaneis enfrentou o inferno. Um episódio que marcará a história de Brasília: o caos na Praça dos Três Poderes, a intervenção na segurança pública e o afastamento do poder.
Mas o momento agora é outro.
Ibaneis retornou, nesta quinta-feira (16/3), ao Palácio do Buriti e deu início a uma nova fase. Está aberto a debater o que ocorreu em 8 de janeiro, faz críticas sem receio de externar sua opinião e assume a cadeira de nº 1 do Executivo, com planos de retomar e lançar obras, depois da liberação na véspera em decisão do ministro Alexandre de Moraes.
Para o governador do DF, após 65 dias em silêncio, a avaliação sobre o vandalismo na Praça dos Três Poderes é direta: “Houve uma loucura coletiva”, provocada por uma parcela eleitora do ex-presidente Jair Bolsonaro que acreditou ser possível provocar um golpe de Estado no país.
As falhas na segurança, segundo Ibaneis, foram provocadas por um “apagão geral”, mas não apenas por culpa da Polícia Militar. Também por equívocos das forças federais. O maior problema, segundo o governador, foi permitir que manifestantes permanecessem tanto tempo acampados em frente ao QG. E, neste caso, esse seria o grande erro do Exército durante o governo de Bolsonaro e também no do presidente Lula, segundo Ibaneis.
Apesar da crise, ele diz que não se arrepende de ter nomeado novamente Anderson Torres secretário de Segurança do DF. Admite que recebeu conselhos para evitar esse caminho, mas diz que só perdeu a confiança no ex-ministro da Justiça ao ver a depredação dos palácios na Praça dos Três Poderes.
Agora, segundo Ibaneis, Anderson deve explicações ao país, especialmente sobre a minuta do golpe encontrada pela Polícia Federal na casa dele, durante busca e apreensão. “Não se pode menosprezar o fato de aquilo estar na casa do (ex) ministro da Justiça, que é amigo pessoal do (ex) presidente da República”, afirma Ibaneis.
O senhor se referiu ao que aconteceu em 8 de janeiro como um apagão geral. Acredita que houve uma conspiração?
Por tudo que eu li — e tive oportunidade de ler vários depoimentos — não consigo acreditar que tenha havido uma conspiração. Para isso, tinha que envolver inúmeras pessoas. Considero que tenha ocorrido realmente um apagão geral. Foram vários erros cometidos em sequência. E não é uma coisa que a gente pode considerar nova aqui no Distrito Federal. Nós tivemos, em 2013, aqueles jovens que invadiram o Congresso Nacional e tocaram fogo na Esplanada dos Ministérios. Em 2017, também tivemos o Itamaraty quebrado. Então, foi trágico o que aconteceu (em 8 de janeiro), porque tivemos uma invasão do Supremo Tribunal Federal, um quebra-quebra geral, foi uma comoção nacional, mas, dizer que havia conspiração e que se conseguiria envolver aquela quantidade de pessoas, acho muito complicado. Mas nós estamos com um inquérito em andamento e o inquérito vai esclarecer tudo isso. Vamos ter que aguardar o fim do inquérito para saber se houve um culpado realmente, uma pessoa que tramou isso tudo. Mas eu sinceramente, do ponto de vista pessoal, não acredito nessa conspiração.
Mas pelo que o senhor viu, pareciam profissionais invadindo as sedes dos poderes?
Profissionais não. Pessoas que entravam nos prédios e ficavam tirando fotos de si mesmas, que ficaram gravando, mandando mensagens, não podem ser profissionais. Um bandido profissional não tira foto de si próprio e posta numa rede social. Acho que ali houve um loucura coletiva. Foram pessoas que estavam gestando, como diz o ministro (da Justiça) Flávio Dino, um golpe dentro da cabeça deles, no quartel general, e terminaram transformando um movimento de vandalismo total.
E algumas pessoas foram levadas pela multidão…
Eu eu me lembro muito bem daquele episódio com a queima do índio Pataxó. Se fosse um daqueles meninos sozinho, não teria ocorrido aquilo. Agora como estavam em grupo fizeram. Então, eu acho que quando você está dentro de um ambiente daquele ali algumas pessoas terminam tendo uma explosão de violência, uma explosão de agressões. Acho que foi o que aconteceu naquele dia.
Mas não havia os mentores dessa invasão?
Acho que veio gente determinada a isso. Se você imaginar que vieram de vários locais do país… E aí eu não entendi o que aconteceu com a inteligência. São tantos órgãos de inteligência, da Polícia Militar, do Exército, da Polícia Rodoviária Federal… E ninguém conseguiu detectar esse movimento violento. Todos diziam de forma bem clara que o movimento era pacífico. Então, ninguém conseguiu gestar um documento de inteligência que alertasse para aquilo que aconteceu.
E os militares? Como o senhor avalia a participação deles nesse episódio?
Essa participação precisa ser bastante investigada. Na minha visão, o principal erro do Exército foi ter permitido aquele acampamento na porta dos quartéis.
O senhor tentou tirar…
Tentei tirar e fomos impedidos. Era muito mais fácil com 500 policiais retirar todo mundo que estava na frente dos quartéis do que com 2,5 mil policiais retirar quem estava na Esplanada. Então, acho que esse foi o principal erro do comando do Exército— e quando falo, me refiro tanto ao governo Bolsonaro quanto ao governo Lula. Porque o presidente Lula já estava com oito dias no mandato quando aconteceu o oito de janeiro. Eles também assumiram e não tiraram aquelas pessoas da porta do quartel-general, mesmo com todo o apoio que nós podíamos dar com o DF Legal, com a Polícia Militar.
O senhor recebeu vários relatos do delegado Fernando Oliveira, que estava na no exercício da Secretaria de Segurança do DF, de que estava tudo bem. O que houve?
Eu tenho o costume de delegar poder e cobrar da pessoa para quem eu deleguei. Então, eu entrei em contato com o Anderson — ele tinha me falado que ia viajar, mas eu não tinha captado bem quando e como é que seria. Ele me disse que estava pousando nos Estados Unidos e me passou o telefone do 02 dele, que era o Fernando, delegado da Polícia Federal. Eu não o conhecia. Ele passou a fazer relatórios de duas a três vezes por dia, dizendo o que estava acontecendo. Ele mandou o relatório no sábado, no domingo pela manhã, por volta das 8h, dizendo que estava tudo pacífico, que estava tudo tranquilo. Mandou mensagem de novo — eu me lembro bem desse horário porque foi logo depois que eu saí da missa no Perpétuo Socorro. Ele relatava que estava tudo na paz, tudo tranquilo. Então, eu não tinha como tomar uma outra atitude. Você recebe uma informação do seu secretário de Segurança em exercício dizendo que está tudo tranquilo, você vai mandar prender, fechar a Esplanada? Não tinha como fazer isso naquele momento.
O senhor se arrepende de ter nomeado Anderson Torres de volta como secretário?
Não. Ele é uma pessoa que gozava da minha confiança integral e foi um excelente secretário de Segurança. É um cara experiente, estava recém-saído do Ministério da Justiça. Eu ouvi algumas pessoas que me pediram pra não nomeá-lo, exatamente por conta da proximidade dele com o presidente Bolsonaro. Mas eu confiei e apostei que daria certo. E apostei também no relacionamento que eu particularmente tinha com o ministro Flávio Dino. Tenho ainda. Ele foi governador junto comigo. Foi meu professor de pós-graduação. Foi juiz federal na época que comecei a advogar. Então, apostei que poderia deixar o Anderson cuidando da segurança aqui no DF e o relacionamento com o Ministério da Justiça eu faria pessoalmente.
Matéria completa em: Correio Braziliense