Passageiro do voo da TAP relata momentos de apreensão

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Passageiro do voo da TAP relata momentos de apreensão

Sim, foi difícil. E sim, tivemos medo. E mais, percebi no exato momento em que o problema começou. Coisa de quem, como eu, gosta de aviação desde pequeno. E coisa de quem, como eu, sabe dizer quando ocorreram, onde aconteceram e quais as razões alegadas para os principais desastres aéreos da história.

Turibio estava dormindo, e eu, assistindo a Captain Phillips. Pela janela, apenas um resquício de luz do dia. O avião começou a fazer uma curva acentuada para a direita e a descer, a perder altura. Não acredito que qualquer pessoa tenha percebido — até mesmo porque falei, mais tarde, com algumas delas, e ninguém havia tomado noção da situação até que o capitão anunciasse o fato. Esse foi o pior momento. O que podíamos estar fazendo descendo naquela escuridão, no meio do mar? O que havia de luz do dia ficou para o outro lado da cabine, e eu nada mais via. Acordei Turibio, que, desorientado, foi ao toalete. Fiquei sozinho, olhando para os outros passageiros. E ela percebeu.

Filipa, uma das comissárias, percebeu. Veio até o meu assento e começou a explicar que estávamos voltando para a Ilha do Sal. Nesse exato momento, o capitão começou a dizer a mesma coisa pela sistema de comunicação. Turibio voltou do toalete.

Ainda assim, lá fora, nada se via. Apenas escuridão. Não havia maneira alguma de se dizer a que altitude estávamos. Sentia que descíamos, e rapidamente, até pela pressão no ouvido. Mas o comandante havia desligado o sistema de informações de voo e a altitude estava congelada em 11.200 metros. Sabia que isso não era verdade. Lá fora, nada.

Filipa, mais uma vez, percebeu. Pegou em minha mão e disse “olhe pelo lado bom, vamos conhecer o Sal!”. “Vamos dormir na Ilha do Sal.”

Mesmo com todo esse apoio, a descida da escuridão foi a pior parte. É claro que ela não me diria se a situação fosse mais grave, para não causar pânico. Podia até ser que nem soubesse. Mais algo em seu olhar de certeza fez com que eu aturasse os minutos até ver as luzes do sal. Só aí respirei.

Ao pousarmos, o que se seguiu foi o esperado. O que se faz com duzentos e tantos passageiros em uma ilhota no meio do Atlântico? Como acomodar tanta gente nos poucos hotéis? Tiro o chapéu para a tripulação da TAP. Em uma situação excepcional, os procedimentos não poderiam ser realizados de forma mais correta. As informações chegaram quando puderam chegar e da forma que puderam chegar. As instruções também. É claro que todos, no saguão do aeroporto do Sal, estavam ansiosos. E é claro que muitos não ficaram felizes com o andamento das providências. Mas era um problema técnico, algo a ver com a queima de óleo em uma das turbinas, que seria sanado por técnicos vindos de Lisboa. E seguiríamos viagem no dia seguinte. E todos seriam acomodados em hotéis.

Nem todos os hotéis eram bons? Pelo amor de Deus, estávamos em terra e, graças a um comandante precavido, que preferiu não arriscar cruzar o Atlântico com um problema técnico — algo que talvez outro capitão fizesse, pressionado por horários e cumprimento de metas —, estávamos todos bem! A TAP fez o possível para acomodar todos, mas eram duzentas e tantas pessoas, e de supetão, numa ilhota.

O voo, no dia seguinte, foi turbulento. Céu azul, mas muito vento. E ainda por cima arremeteu ao chegar no Recife. Nunca soube a razão disso. Pelo que podia sentir, não havia vento. Não para se abortar uma aterrissagem. Mas quem sou eu para julgar?

O que sei foi o que vi — dentro das circunstâncias, o comportamento exemplar de toda uma tripulação. Obrigado, Filipa. Obrigado, comandante. Obrigado, tripulação. Sei que, se encontrá-los outra vez, estarei em boas mãos.

No mais, a vida é isso mesmo — às vezes boas, como quando olho para o assento ao lado e vejo Turibio. Às vezes assustadora, como quando olho pela janela e nada vejo. Entre um e outro, é isso que se passa sob o céu que nos protege.

* Zezinho Santos é arquiteto e estava no voo da TAP

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