O novo governador de Pernambuco, Paulo Câmara, inicia o seu mandato na próxima quinta-feira com a árdua missão de substituir seu padrinho político, o ex-governador Eduardo Campos, morto em tragédia área no mês de agosto.
Mais que dar continuidade a uma administração que contava com mais de 80% da aprovação dos pernambucanos, o ex-secretário da Fazenda terá que promover avanços em diversas áreas, como a segurança, que viu seus índices piorarem durante este ano. Paulo, no entanto, já definiu qual será o seu primeiro foco de ataque: “A prioridade um é saúde”, disparou durante entrevista.
Além de prometer que cuidará da ampliação estrutural do setor, com a construção de novas UPAs e hospitais, o socialista garantiu que uma das preocupações principais de seu governo será ampliar as políticas sociais em todas as áreas. “Na Saúde, por exemplo, dobramos o número de leitos, multiplicamos por cinco o número de UTIs, conseguimos chegar mais perto das cidades, da população. O que a população quer agora é uma humanização da saúde”, exemplificou.
O novo governador, no entanto, abordou vários assuntos que merecerão atenção especial durante o seu primeiro ano de governo, como a relação com o governo federal para reabrir a torneira dos investimentos. Falou também da rápida ascensão, dos primeiros desafios políticos que terá que enfrentar, como a eleição da mesa diretora da Assembleia Legislativa e o imbróglio que pode gerar um confronto direto com o nome mais forte para a disputa, o deputado estadual Guilherme Uchoa (PDT), que tentará o seu quinto mandato na Casa de Joaquim Nabuco. Falou também sobre família, prioridades, desafios para 2015 e que espera, em 2018, ter cumprido todos os compromissos de campanha, sem antecipar se será o nome natural do partido quando o próximo pleito chegar.
Veja a entrevista:
O governador João Lyra, em entrevista, deu declarações em que se mostra magoado em relação ao processo de escolha do candidato do PSB ao governo do estado. Ele também comentou que não foi consultado sobre o seu secretariado. O senhor tem conversado com ele, como está a sua relação?
Acho que faz parte do processo político, algum tipo de descontentamento que possa ter havido, porque sempre ocorre. Eu presenciei isso em várias etapas da minha vida pública. Escolha de secretariado sempre gera descontentamento e isso pode gerar também um desdobramento dependendo do ator.
Escolha de candidato não é uma coisa fácil, porque você escolhe um entre vários que têm condição. No meu caso foi uma opção diferente do tradicional, tanto meu caso como o de Geraldo, duas pessoas que nunca tinham disputado uma eleição, jovens, que nunca tinham sido vereador, prefeito, deputado, que nunca tinham sido nada.
Então, é uma escolha diferente que muita gente pode entender como equivocada, como não ser o caminho certo ou um desprestígio com quem faz militância política-eleitoral há muito tempo… Isso sempre gera um ruído, algum tipo de descontentamento. Então o que eu procuro sempre é ouvir as pessoas e ver o encaminhamento que pode ser dado. Já conversei com João Lyra muitas vezes. Não conversei após o que saiu na imprensa, mas vou conversar. Sempre conversei muito com João Lyra.
Esse descontentamento quem presenciou a escolha do candidato no mês de fevereiro, viu que notoriamente ele não ficou satisfeito com a forma como foi conduzido o processo. Isso aí, o que ele disse na entrevista é o que a gente já havia presenciado no início de fevereiro. O fato de ele não ter concordado com a forma com que Eduardo conduziu o processo. Então, eu não vi novidade. Acho que isso foi uma parte já superada do processo, não tem mais o que fazer. O que ele falou foi o que a leitura política de todos que acompanham o processo já sabiam.
João Lyra é governador de Pernambuco até 31 de dezembro. Ele me disse que continuará fazendo política, ele é vice-presidente do partido, a família Lyra está presente na cena política, Raquel Lyra é deputada estadual e tem pretensões políticas para 2016 e eu vou, sempre que possível, sempre que conveniente, conversar com João Lyra sobre as coisas de Pernambuco, sobre os destinos… Então, eu espero tê-lo como uma pessoa que quer contribuir ainda para o nosso estado. Tenho certeza que ele está aberto a coloborar naquilo que for chamado.
Quais as perspectivas econômicas para o seu primeiro ano de governo?
A gente tem um ano ainda muito incerto. Acho que é o ano que menos poderemos fazer previsão de como ele vai acabar. Porque, fora as questões econômicas, as questões normais de primeiro ano de mandato, há muita incerteza.
A troca da equipe econômica do governo federal foi uma prova dada pela presidente Dilma Rousseff de que ela vai mudar a forma da condução econômica. O próprio Joaquim Levy (ministro da Fazenda) disse que ele irá fazer o ajuste fiscal e isso envolve claramente cortes. O tamanho e a abrangência desses cortes é que vão dar o tom do ano.
Os sinais de que as desonerações não vão mais existir. Por outro lado, o Nélson Barbosa, como ministro do Planejamento é um claro sinal de que há um esforço de retomar os investimentos e de o Brasil voltar a crescer. O Nélson Barbosa tem experiência nisso. Então é um tripé de política fiscal, de retomada de uma política fiscal de decisão, com uma política monetária que vem sendo utilizada nos últimos anos para combater a inflação e com o esforço de retomar o crescimento do país e o crescimento traz por si só a manutenção do emprego, a distribuição de renda… Então, é um fator importante. Esses ajustes podem dar um tom diferente para os próximos anos.
A partir de 2015 teremos um ano mais restritivo como também não é muito diferente dos primeiros anos de governo. A maioria dos primeiros anos de governo, se você pegar a série histórica, são anos de ajustes, independente de ser reeleição ou não do governante. Então, a minha expectativa é de que a gente vai ter que continuar a fazer o que tem que ser feito: priorizar o gasto naquilo que é importante, economizar ao máximo naquilo que pode economizar, e buscar junto ao governo federal que as coisas que são estruturantes, que são fundamentais para o estado, não fiquem em segundo plano.
A continuidade e a conclusão das obras é fundamental, e outros projetos que são estruturadores para Pernambuco que a gente vai apresentar à presidente como fundamentais para a gente ultrapassar 2015 de maneira tranquila. Vou fazer o dever de casa. Pernambuco tem muitas oportunidades se desenhando agora, conclusão de grandes empreendimentos, colocação desses empreendimentos em funcionamento, muita coisa a ser entregue ainda no âmbito do governo estadual que não deu tempo de concluir em 2014, que a gente vai concluir em 2015. Então vai ser um ano que a gente vai conseguir fazer muitas entregas e também será um ano de fazermos projetos. Nós temos o programa de governo que foi aprovado, muita coisa que está no programa de governo a gente vai precisar projetar, vamos aproveitar 2015 para isso…
Fazer projeto é muito mais barato do que fazer obra, porque para fazer obra é preciso fazer o projeto. E cada equipe, cada secretário otimizar em sua secretaria aquilo que é mais importante no momento: conclusão do que está em andamento, fazer os projetos e iniciar políticas diferenciadas que façam com que as coisas cheguem mais rápido à população. A melhoria da qualidade dos serviços públicos tanto na saúde, como na educação, como na segurança elas muitas vezes não envolvem recursos, envolvem mudança de forma de gerir, de comportamento, a mudança de algumas pessoas, então é hora de fazer isso também.
O que vai nortear a economia no primeiro ano?
O que a gente vê na máquina pública que tá sempre acontecendo… A tecnologia da informação ela está cada vez mais presente em todos os processos e procedimentos do estado, então é uma ferramenta que vem fazendo as coisas melhorarem, serem mais rápidas e econômicas em algumas áreas. Então a gente tem que começar a ver mudança de procedimento… É o ano de se fazer mudança de procedimento, de rever alguns contratos… Tudo isso são os alicerces do primeiro ano, porque depois a dinâmica da máquina também pede o que a gente tá fazendo. É obvio que quero manter a máquina em níveis cada dia mais enxutos… Quando a gente fala da diminuição da folha dos comissionados é isso… Acho que a gente pode funcionar bem com menos.
E em todas as áreas, nas formas de contratação, tanto nas grandes compras, como nos serviços, nas obras de engenharia, nos serviços de informática, tudo isso pode ser acoplado. E a área meio tem um grande papel nisso aí que é ver realmente as oportunidades que estão surgindo e como a gente pode introduzir ela no estado, pra gente melhorar. A central de licitações, concentrar o maior número de licitações em um único órgão na Fazenda, para você ganhar escala… Isso vai ser cada vez mais fortalecido no nosso governo. Isso já vem sendo feito, mas a gente vai fortalecer mais… E buscar, com a tecnologia da informação, ver o que os outros estão fazendo. Vamos procurar as experiências que vêm dando certo em cada área.
Diário de Pernambuco
