“Preciso de alimentos para meus filhos”, diz José Cícero Santos, 42 anos, ajudante de carpinteiro, numa rua do Espinheiro, Zona Norte do Recife. “Estou com fome, ajude, obrigado, paz”, afirma Denise Rodrigues, 32, sem profissão, numa calçada do bairro dos Aflitos, também na Zona Norte.
“Por favor, ajude a comprar uma caixa térmica para trabalhar. Deus abençoe”, pede Sinval Barbosa, 39, camelô, em Boa Viagem, na Zona Sul. “Estou desempregado, me ajude”, suplica Hércules Douglas, 23, jardineiro, num semáforo da Avenida Agamenon Magalhães.
Com o agravamento da pandemia de covid-19,cruzamentos movimentados da capital pernambucana são os locais escolhidos por moradores de rua ou desempregados para gritar por socorro, com mensagens transmitidas em pedaços de papelão. Um clamor silencioso para que motoristas, mesmo com vidros fechados de seus carros, ouçam o apelo por comida e emprego.
“Faz oito meses que vim morar na rua. Durmo numa marquise na frente do hospital de covid, vejo as ambulâncias chegando de madrugada, é uma atrás da outra. Trabalhava como camelô no Centro de Recife, mas com as lojas fechando ficou cada dia mais difícil para sobreviver. Escolhi Boa Viagem porque o pessoal ajuda mais. Ganho roupa, cobertor, comida. O ruim é não dormir direito, tem que ficar vigilante para não acontecer nada“, diz Sinval.
A unidade de saúde a que ele se refere é o Hospital Alfa, um dos maiores do Estado que atende pacientes com o novo coronavírus, localizado na Avenida Visconde de Jequitinhonha. “Tenho três filhos pequenos para dar conta. Eles vivem na Muribeca (Jaboatão dos Guararapes). Sem renda num dá. Por isso peço ajuda para comprar uma caixa térmica e água mineral para vender no sinal“, explica.
“Tenho quatro filhos. Um mês atrás a gente morava embaixo de um viaduto. Mas durante a noite ninguém é de ninguém, dá medo. Aluguei um barraquinho de taipa por R$ 150 para pelo menos as crianças não ficarem na rua. O desemprego me fez vir para o sinal pedir ajuda“, conta José Cícero. “Arrumo 10, 20, 30 reais. Algumas pessoas dão alimentos. medo de pegar esse vírus, mas fazer o quê? Antes da pandemia eu ajudava na construção de muros de arrimo. Agora não aparece trabalho. O que eu mais queria era um emprego“, afirma José Cícero.
DESEMPREGO
De março a dezembro do ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram fechadas 374 mil vagas de trabalho em Pernambuco. Em 2020, 640 mil pernambucanos estavam sem emprego. A taxa de desemprego no Estado ficou em 16,8%, o maior índice desde 2017 e o quinto pior do Brasil (à frente somente da Bahia, Alagoas, Sergipe e Rio de Janeiro).
“Não temos dados oficiais, mas empiricamente a gente percebe que há mais pessoas nas ruas. É resultado dessa crise sanitária que estamos passando. Muita gente perdeu o emprego. Por isso nem todos que estão na rua moram nela. Muitos vão em busca de alimentos e outras doações“, diz a secretária de Desenvolvimento Social, Juventude, Política Sobre Drogas e Direitos Humanos do Recife, Ana Rita Suassuna.
A prefeitura lançou uma campanha, no dia do aniversário de Recife, em12 de março, para arrecadar alimentos para pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social. Mais de 28 mil quilos foram arrecadados. Desde ontem, os pontos de vacinação contra a covid-19na capital estão recebendo as doações. Segundo Ana Rita, a distribuição de refeições para quem está na rua aconteceu, com equipes da prefeitura, até o final do ano passado. Foi interrompida e voltou neste mês. “Descentralizamos para vários pontos, como Caxangá, Encruzilhada, Afogados, Boa Viagem, Pina. Levamos uma refeição, água, máscaras“, explica a secretária.
PEDIDOS
Foi preocupado com o aumento de pessoas nas ruas que o arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, lançou uma campanha para arrecadar cestas básicas. “É grande a quantidade de pessoas que nos procuram na Cúria em busca de alimentos, empregos e até dinheiro para comprar remédios“, destacou dom Fernando. “Essa campanha é uma forma de diminuir o sofrimento das pessoas que perderam seus empregos, que não podem trabalhar na pandemia, que estão de fato passando necessidades“, comenta o arcebispo.
“As ruas nunca deixaram de ter gente pedindo ajuda. Mas percebemos que está voltando a ficar mais cheia, principalmente de mulheres com crianças. É natural, com o aumento do desemprego. Também porque este ano ainda não houve ajuda emergencial do governo, como foi em 2020“, destaca o diácono da Cúria Metropolitana Antônio Sebastião de Oliveira.
“O pior é que precisamos atender mais gente mas desde o início do ano a quantidade de doações vem caindo“, lamenta. A sede da Cúria recebe doações de domingo a domingo, das 7h às 17h. “Mesmo nos fins de semana, quando não há expediente, os porteiros estão orientados a receberem o que chegar de donativos“, explica Antônio.
SOLIDARIEDADE
Diante de tantas pessoas com fome, um ano atrás, no penúltimo dia de março, a empresária Maria Eduarda Fernandes, 46, decidiu arregaçar as mangas e começou, sozinha, fazendo 20 marmitas por dia, em sua casa, para distribuir perto da sua casa, em Boa Viagem. Vendo a atitude dela, alguns vizinhos decidiram ajudar. A ação cresceu e hoje são 22 voluntários. O projeto Vizinhos Solidários já atendeu, em 12 meses, mais de 20 comunidades. Distribuiu mais de 70 mil marmitas e 10 mil cestas básicas em 72 pontos de Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes.
“De segunda à sexta-feira entregamos, todos os dias, entre 150 e 200 refeições, sempre em um local diferente. Vai também suco, bolo e um kit de higiene pessoal para cada pessoa. Mapeamos algumas comunidades para entregar cestas básicas. Tudo com doações“, conta Eduarda. “De dois meses para cá a situação está gritante. Cresceu assustadoramente o número de pedintes nas ruas“, atesta a empresária. “Desde o dia 16 de março que tenho uma lista com 2 mil famílias do Bode e do Pina para atender e não tenho como fazer. É de cortar o coração, das lágrimas descerem. Mas se Deus quiser vai chegar ajuda“, diz Eduarda.
Além de alimentos, o grupo precisa de doações de sabonete, máscaras e água mineral. “Muitas vezes as pessoas que estão na rua dizem ‘doutora dê pelo menos água’. Porque nem sempre chega água mineral para eles tomarem“, informa Eduarda.
JC
